27 maio 2014

Quando Termina a Bettega



Curitiba. Cidade modelo. Cidade luz. Cidade tonight. Tem ligeirinho. Expresso. Azulão. Quase metrô. Cidade onde sou amplamente conhecido por ser um completo anônimo. Exceto para alguns colegas de trabalho – alguns – e uns três ou quatro atendentes de farmácia ou restaurante. Tirando isso, eu poderia circular livremente, da CIC ao Atuba, sem paparazzi nenhum me azucrinando.


Já no lado de cá da CIC, no final da João Bettega, onde tem aquela curvinha melindrosa por baixo da BR, onde moças que preferem ser chamadas de moças oferecem regularmente seus serviços de deleite aos motoristas, meus problemas começam.

Não vou dizer que é o tempo todo, claro. Na maior parte do ano – durante três anos – eu posso andar tranquilamente também. Mas em ano de eleição municipal, meu lindo leitor, eu confesso: aquela placona verde com os dizeres “Bem vindo a Araucária” me causa certa comoção. É como se eu estivesse desfilando na calçada da fama.

Você acha que estou exagerando. Consigo imaginar seus olhos agora, de desprezo, quase fechando essa janela e julgando-me arrogante. Peço que leia o próximo parágrafo para entender as razões pela qual meu coração palpita quando faço a última curva à esquerda, para passar sobre o rio e sob a placona.

Pois bem. Vou usar como argumento a última vez em que essa maravilha aconteceu. Há dois anos, eu fui chamado por gente super importante daqui de “formador de opinião”, de “um dos melhores músicos daqui”, “um dos caras mais inteligentes que conheço” e “grande cabeça pensante da cidade”, entre outros.

Sou obrigado a concordar com este último, mais pela parte do “grande” do que do “pensante”.

Um empresário de Araucária muito me emocionou ao solicitar que um amigo antigo me fizesse uma oferta. Não uma oferta qualquer. Não uma grande oferta. Vamos dizer assim: ele me fez uma big oferta.

Ciente da responsabilidade cultural que sua empresa deveria adotar, ele julgou que minha banda era tão boa que merecia um aporte financeiro. Aquilo muito me lisonjeou, afinal a gente trabalha é pra ser reconhecido mesmo, certo?

Como o empresário, todavia, tinha um grau de parentesco com um então candidato a vereador, e não querendo deixar o vereador ser mal falado (a despeito de sua imensidão territorial, Araucária pode ser considerada uma cidade pequena, e cidade pequena, você sabe, basta um pequeno mal entendido para que a pessoa caia em boca de Matilde), eu solicitei ao agradável empresário que me procurasse um dia após as eleições, quando eu passaria meus humildes dados bancários, aceitando a oferta.

Basta dizer que minha conta continuou humilde depois da eleição.

Assim, leitor, neste momento em que tristemente vejo se desenrolando a política nacional e estadual, continuo andando incógnito pelas ruas, avenidas, vielas desta cidade que tanto amo e em cujas esquinas tanto espero por um olhar de reconhecimento pelas minhas grandes qualidades intelectuais e musicais.

Sei que esse reconhecimento chegará a seu tempo. No mínimo, daqui a dois anos, quando aquela placona novamente assumir seu ar de “Você, sim, você, seja muito bem vindo, meu rei. Hoje todo mundo é rei. Hoje tudo tem seu preço e nada é caro demais.