17 janeiro 2017

A PARTIDA DAS NOSSAS VIDAS



O homem é um bicho cruel. Nem me refiro à crueldade grande, da bomba atômica, do holocausto, do sucesso do cantor Latino, mas daquela crueldade menor, diária, crueldade moleque, a crueldade de botar apelido nas pessoas. No nosso time de futebol havia dois Marcos e nenhum era chamado pelo nome. Um era o Cadela e o outro o Pilce.

05 janeiro 2017

O SAPO

Um grupo de crianças. Uma tábua, um prego passado com a ponta pra fora. Um prego grande. Pilha de tábuas, molhadas por causa da chuva. Um sapo sobre uma tábua. Um menino com a camisa do Vasco da Gama ri muito enquanto coloca o prego cuidadosamente apoiado nas costas do sapo, com cuidado para não perfurá-lo. Não ainda. Outro, por curiosidade ou covardia, apenas observa assustado, arrumando os óculos. O menino com a camisa do Vasco corre, gritando, pula com força pra cima, e com precisão pousa os dois pés sobre a tábua com o prego sobre o sapo.

Todos riem, alguns tensos. Um sapo foi pregado. Só depois disso foi esmagado. Numa fração de segundo, o sapo foi um jesus pregado numa cruz de malta. Todos gritam. O pai do vascaíno é vascaíno. Ele não diz “vasco”, ele diz “vashco”. “Eu toirço pro vashco”.  

O filho do vascaíno é vascaíno.

03 janeiro 2017

SOBRE MEU ÚLTIMO DIA COMO CARTEIRO



Fitilho é uma cordinha de plástico, bem fina e frágil, usada para fazer amarrações temporárias e que não exijam muita força. O tipo de material menos recomendável para prender um cachorro, em especial se o cachorro for um Dog Alemão. Ainda menos se na ponta oposta à do cachorro estiver um toquinho preso no chão de forma pouco segura e firme. E, ainda menos, se o cachorro tiver sido criado para se tornar um assassino sanguinário.


A cena já é naturalmente perigosa, mas vamos colocar um pouco mais de emoção nisso: o cachorro está olhando para uma pessoa vestida com o famoso uniforme dos Correios. Dentro dessa roupa está uma pessoa cujo medo é tão grande que faz determinadas partes de seu corpo fazerem jus ao famoso ditado “não passava uma laranja”. Essa pessoa, que vai agora protagonizar a história de seu último dia como carteiro, sou eu.


30 dezembro 2016

SOBRE COMO DESCOBRI QUE OS BEBÊS TALVEZ NÃO SEJAM ENTREGUES POR UMA CEGONHA


Na minha rua existia uma hierarquia entre as crianças. Os mais velhos e maiores eram obviamente os que controlavam as brincadeiras. A mais nobre, claro, era o futebol, disputado num terreno baldio cuja demarcação era feita com uma vareta — riscávamos o chão de terra preta até que ficasse uma marca quase impassível de questionamento sobre os limites do campo — de forma tão rudimentar que havia no ar um medo permanente de que um dia um fiscal da FIFA aparecesse por lá e impugnasse novas disputas em nosso estádio.

SOBRE COMO EU OBTIVE UMA QUEIMADURA AO TENTAR FAZER UMA MÁSCARA FEITA DE JORNAL


Era uma quarta-feira pela manhã e eu estava provavelmente assistindo o famoso seriado Jaspion (pelo menos era famoso na época, acho que o ano era 1991) quando me lembrei: toda quarta-feira era dia de aula de educação artística e eu tinha que entregar um trabalho naquela tarde.

NO ATENDIMENTO – UM ESTUDO DE CASO SOBRE O NERVOSÃO DA FILA, HUMOR COLETIVO E CRUELDADE INTENCIONAL


Antes de começar esse estudo eu já peço desculpas aos amigos psicólogos porque acho que isso era assunto mais pra eles do que pra mim. Mas, se você tiver disposição de observar a natureza humana com o distanciamento possível, trabalhar no atendimento ao público te dá uma espécie de estágio em psicologia não homologado pelo MEC. Eu não tenho nutrido lá grandes amores pelo MEC, então segue o baile.

27 maio 2014

Quando Termina a Bettega



Curitiba. Cidade modelo. Cidade luz. Cidade tonight. Tem ligeirinho. Expresso. Azulão. Quase metrô. Cidade onde sou amplamente conhecido por ser um completo anônimo. Exceto para alguns colegas de trabalho – alguns – e uns três ou quatro atendentes de farmácia ou restaurante. Tirando isso, eu poderia circular livremente, da CIC ao Atuba, sem paparazzi nenhum me azucrinando.