Antes de começar esse estudo eu já peço desculpas aos amigos psicólogos porque acho que isso era assunto mais pra eles do que pra mim. Mas, se você tiver disposição de observar a natureza humana com o distanciamento possível, trabalhar no atendimento ao público te dá uma espécie de estágio em psicologia não homologado pelo MEC. Eu não tenho nutrido lá grandes amores pelo MEC, então segue o baile.
Existe uma figura que eu intimamente chamo de Nervosão de Fila. É o cara que acha absurdo ter que esperar sua vez. Coincidentemente, esse é o cara que só aparece no horário de pico, quando se espera em média uns vinte minutos pra ser atendido. O Nervosão sabe da existência de uma Convenção Social que demanda pegar um papelzinho com um número escrito, ele só não concorda que essa regra deveria se aplicar a ele.
Para este estudo, vamos considerar que no papelzinho que o Nervosão segura neste momento consta o número 73.
O Nervosão olha para o grupo de pessoas também aguardando. Faz uma rápida conta de cabeça e vê que tem muita gente antes dele (todos estão antes dele, afinal ele acabou de chegar). Esse tempo de espera dá a ele a oportunidade de fazer uma profunda análise sobre sua própria existência e significado do seu Eu Interior diante de outros seres da mesma espécie.
Em geral essa análise se baseia em lembrar que tem tanta coisa pra resolver agora à tarde e que, meu deus, como tudo é demorado e burocrático, como esse país tá uma merda e é por causa dessa demora que o Brasil tem tanta corrupção, foda que ainda tem que ir no banco depois daqui, e lá fecha às três, aqueles filhos da puta ainda não depositaram o cheque da minha mulher. Aí ele lembra que as coisas com a mulher também não andam muito bem, o que faz aumentar seu status de Nervosão.
Como entrou nesse estado de digressão, o Nervosão acha que já se passaram várias horas desde que submergiu em si mesmo. Mas quando volta ao mundo ele vê que no painel ainda está o mesmo número que foi chamado por último. Então ele decide agir. Ainda preso pelas amarras das convenções sociais, essa ação é pequena, mas ele acredita que será muito efetiva.
Ele resolve esperar em pé, olhando pro local onde os clientes anteriores estão sendo atendidos. Pronto, isso definitivamente vai fazer as coisas andarem mais rápido. Nada como um olhar apressado de um Nervosão para adiantar o rolê todo. Alguém aí manja de física? Se não me engano, foi Einstein que disse que o tempo passa em velocidades diferentes dependendo da quantidade de Nervosões olhando o objeto estudado, além da intensidade do olhar deles. (Eu li o original em alemão, talvez parte da tradução esteja inexata).
Mas a verdade científica é cruel quando confronta a crença. Imagine que você acredita que mascar um dente de alho todo dia vai curar sua miopia. Depois de 10 anos sem beijar ninguém você finalmente é obrigado a aceitar que talvez um óculos combine com sua cara feia. Em alguns casos até melhora (parte autobiográfica do estudo, retirar antes de publicar). Assim ocorre com o Nervosão. Ficar Em Pé Olhando é uma crença que não resistiu à criteriosa análise científica — ele segue esperando.
Desde a entrada do Nervosão até agora passaram-se dois minutos.
Primeiro momento de tensão: termina um atendimento e o Nervosão sabe que outro número vai aparecer no painel. Isso acontece. Ele tinha esperança que o universo escrevesse 73 no painel. Isso não acontece. Péssimo dia para as crenças do Nervosão.
Outras pessoas chegam, pegam seus papeizinhos. Sentam. Nervosão tá lá, firme. Menos firme, todavia. Cogita sentar também, mas não pode dar o braço a torcer. Ademais, agora todos os bancos estão ocupados. Mais essa ainda.
(Preparação para o clímax)
Termina outro atendimento, Nervosão olhando pro painel, nervosão. Aparece um número. Não só não é o dele, é um número maior que o dele. Maior? MAIOR!? Mas chegou depois de mim e vai ser atendido primeiro!?!?
O tamanho do ultraje que o Nervosão sente só se explicaria com outro estudo específico para isso, em que se aprofundasse a análise sobre todas as frustrações da vida. As vezes em que foi passado pra trás, as notas ruins, as conquistas não concretizadas, os nãos nas baladas... O fato é que dessa vez ele está Certo e está sendo Injustiçado. Porra, se mesmo não concordando com a convenção de pegar essa merda de número e esperar ele está fazendo isso, as regras precisam ser seguidas pelos Outros também.
Falando nisso, existem os Outros, eles aumentam sua importância agora. Até o momento eles são figuras cinzas e irrelevantes para a história. Mas o Nervosão, líder que é, consegue a simpatia dos Outros com uma frase, decidida, firme, certeira:
- CHAMARO O OITENTA E EU SOU SETENTA E TRÊS
Ao mesmo tempo ele sente orgulho por ter tomado essa decisão e vergonha por se referir a si mesmo como um número, logo ele que rejeita essa ideia de ser apenas um número. Mas o orgulho é maior. Porque os Outros, que também viram esse absurdo, olham pra ele como “que homem, que guerreiro, que cavaleiro da justiça”, ele mesmo está convencido de que se tornou o representante do povo contra as grandes corporações. Não farão isso com a gente, folks. Não enquanto eu estiver aqui. Mil cairão à tua esquerda...
Ele olha pra você, inquisidor. Você precisa se explicar. Os Outros olham pra você, uma certa curiosidade mórbida e excitada no olhar, rá, tomara que dê porrada, finalmente algo pra tirar o tédio.
Você sabe o que aconteceu. E por saber, você é bondoso com o Nervosão. Mas nessa história você só será bondoso uma vez. Você diz:
- Oi?
- CHAMARO ERRADO
- Qual sua senha, senhor?
- SETENTA E TRÊS.
- Já chama sua senha no painel, senhor, é só aguardar.
Você espera que ele sossegue. Você até torce pelo Nervosão. Mas, como eu disse, esse é seu único momento de bondade. A partir de agora, o Nervosão vai insistir e se arrepender. É exatamente o que ele faz, com uma segurança inabalável de si mesmo. É William Wallace gritando “liberdade”:
- É MAS COMO QUE CHAMARO ANTES?
Do momento em que a senha foi chamada até agora passaram-se cinco segundos. Esse é o tempo que a Senhora de Bengala leva para passar ao lado do Nervosão segurando um papelzinho em que consta o número 80.
O Nervosão olha pra ela, temeroso.
Você, como um governo golpista, começa neste momento a aplicar seu longo pacote de maldades:
- É senha preferencial, senhor.
O Nervosão sente uma vertigem e diz “ahn”. Olha para os Outros, que evitam contato visual com seu agora ex-líder. Procura uma cadeira vazia. Existe uma, a que ficou vaga quando a Senhora de Bengala se levantou. Ele senta, tudo o que quer agora é esquecer o assunto, passar uma borracha nesse constrangimento e ser apenas parte dos Outros. Você pode deixar quieto se quiser.
Mas quem tem misericórdia é Jesus.
Você já se levantou e está se encaminhando para a área de espera. No caminho você passa pela sorridente Senhora de Bengala, que lentamente está indo até sua mesa. Você devolve o sorriso e diz “já te atendo, senhora, pode sentar ali”. O Nervosão agora está sentado e, como um aluno que fica encarando a carteira quando o professor se aproxima, ele está desbloqueando o celular, com alguma dificuldade por conta do nervosismo. Ele sabe que você está indo falar com ele.
Você chega na sala de espera. Ele não levanta a cabeça. Então você chama. “Senhor”. Ele olha simulando um pequeno espanto, como se não fizesse ideia do motivo de você estar querendo assunto com ele. Aí você diz:
- A senha daquela senhora que usa bengala é preferencial.
- Ah não aham não tinha visto aham
Ele repete palavras como essas, afirmativas em tom gentil para encerrar logo o assunto, ora meu amigo, o que é isso, você não vai querer levar um equívoco assim tão a sério, certo? E novamente você pode, se quiser, parar por aí.
Mas quem tem pena é galinha. (retirar essa expressão do texto final, ficou muito infantil)
Os Outros estão olhando pra você. Agora eles não são mais os defendidos pelo Nervosão. Eles continuam querendo ver sangue, mas agora é o sangue do Nervosão. Nunca estivemos com ele, bem capaz mesmo, esse bicho burro. Você aponta para o painel e diz “senha preferencial...”, ele corta e diz “aham”. Você continua a explicar o conceito de senha preferencial: “... se aplica a idosos, gestantes, deficientes, pessoas com crianças de colo...”, a cada categoria de cliente preferencial ele confirma que sim, que já sabe tudo isso, que não precisa explicar como se ele fosse uma criança.
Mas seu pacote de maldades ainda não acabou e você aponta pro painel novamente e diz “a cada senha chamada o painel mostra um número e a categoria da senha, se o senhor reparar ali está escrito “80 – preferencial”, não é só o número, mas a categoria também, tá?”
- Ah, não, aham.
E aí você repete, pra fazer um call-back cruel de sua única bondade:
- Já chama sua senha no painel, senhor, é só aguardar.