17 janeiro 2017

A PARTIDA DAS NOSSAS VIDAS



O homem é um bicho cruel. Nem me refiro à crueldade grande, da bomba atômica, do holocausto, do sucesso do cantor Latino, mas daquela crueldade menor, diária, crueldade moleque, a crueldade de botar apelido nas pessoas. No nosso time de futebol havia dois Marcos e nenhum era chamado pelo nome. Um era o Cadela e o outro o Pilce.

O Cadela tinha adquirido essa alcunha por conta de uma epifania que teve depois de uma aula de português. A professora estava explicando sobre cacofonia e deu o clássico exemplo “você viu a boca dela?”, ele demorou mais de um mês para entender e quando entendeu saiu explicando cacofonia para todo mundo. Virou doutor em cacofonia mas sempre usava o mesmo exemplo, e a associação foi feita. Virou Cadela.

Já o Pilce é um derivado de “piercing” pronunciado do jeito errado uma vez, e uma só vez foi suficiente para que Marcos Rogério Andrada, hoje gerente de banco, se tornasse o Pilce. Contam que alguém do nosso grupo teria sido atendido por ele no banco e, apesar da comum formalidade do ambiente, se dirigido a ele dessa forma. Um funcionário de menor escalão teria ouvido e, como acontece nesses casos em que se descobre um podre do chefe, o apelido pegou no banco também, o que teria causado grande desgosto ao pobre Pilce.

Cadela era central. Se você não gosta ou não conhece as posições de futsal, central é equivalente ao zagueiro no futebol de campo. Se mesmo assim não ajuda, explico melhor: é o cara que joga mal, aí você coloca ele na frente do goleiro e torce para que algum movimento involuntário do corpo dele faça com quem nem todas as jogadas adversárias resultem em gol. Pior que ser central é ser goleiro. Goleiro todo mundo sabe o que é. O goleiro era o Pilce.

No meio da quadra fica o que joga melhor e geralmente não há debate sobre esse cara, porque sua qualidade em quadra é inquestionável. No nosso time essa função era desempenhada pelo Peido. Curiosa a origem desse apelido. Qualquer um acharia óbvia a forma como ele foi rebatizado — mas se engana. Ele tinha sido transferido para nossa escola, cujo uniforme era verde. O da escola anterior era um amarelo bem estranho e, até que o novo ficasse pronto, ele foi ganhando fama por ser o menino que usava “um uniforme cor de merda”.

Como o apelido era comprido demais, tornou-se apenas “merda”. Ele um dia reclamou disso, sugerindo que seria muito pesado. A consciência coletiva julgou procedente sua reclamação, diminuindo sua pena para algo mais leve. Ficou Peido. Inquestionável o fato de que é mais leve mesmo. Era bom de bola o Peido, por isso era o pivô.

Pela ala esquerda jogava o único canhoto que conhecíamos, o Nerso. O nome dele não era Nerso, mas uma homenagem a um personagem de sucesso dos anos 90 num programa de TV chamado A Escolinha do Professor Raimundo. Humor baixo, talvez por isso fizesse tanto sucesso. O Nerso real tinha alguns trejeitos que se assemelhavam aos do Nerso personagem. Esse apelido ficou tão forte que uma vez a professora, ao chamar sua atenção em sala de aula, mas sem perder a polidez obrigatória dos professores, gritou “Vai pra sua mesa, Nelson!”.

O Nerso sozinho daria material para que livros inteiros fossem escritos a seu respeito, mas agora vou me contentar em dizer que, se não era muito ágil nos deveres da escola, pela ala esquerda ele fazia seu trabalho satisfatoriamente. Na ala direita o único integrante que não tinha apelido nenhum, que é o que acontece com quem carrega um nome já estranho demais, tão estranho que o próprio nome serve como instrumento para rebaixá-lo. Na ala direita era eu que jogava.

Esse era o time completo. Pilce, Cadela, Peido, Nerso e eu. Jogávamos na escola, depois da escola, antes da escola, nos fins de semana, nos campinhos improvisados, na rua. Onde houvesse possibilidade. Depois que a escola acabou e fomos nos vendo cada vez menos, tínhamos que marcar os jogos com alguma antecedência, mas sempre dava certo. Uns poucos anos depois virou o futebol de quarta à noite ou de domingo.

Acabamos fazendo amizade com outro grupo de jogadores como o nosso. Eles também se criaram juntos, eram amigos de longa data e tinham lá suas histórias e apelidos. Com o tempo ficamos sabendo de todos, mas não vou contar aqui. Se eles quiserem imortalizar suas histórias eles que escrevam e contem por si mesmos, aqueles desgraçados.

Porque a “amizade” era fora da quadra e mesmo assim com ressalvas. Para me referir àquele bando de bárbaros, primatas involuídos, vou usar números de um a cinco. Nossa amizade consistia apenas em jogar toda semana contra eles. Depois do jogo só tolerávamos sua presença na mesa porque eram eles que tinham mais dinheiro e pagavam a cerveja enquanto se vangloriavam de suas vitórias, como se alguém se importasse com isso.

Um dia alguém perguntou para um deles qual era sua profissão. “Sou agrônomo”. Grandes bosta, agrônomo. Metido. Já viu algum agrônomo marcar gol? Eu vi. Apesar do grande respeito que nutro pelo CREA, devo dizer que aquele agrônomo desgraçado marcava com mais frequência que o que um agrônomo deveria marcar. Além disso, ele era bonito e cantou a namorada do Pilce e ela gostou, o que fez o Pilce ficar tão nervoso que quis sair do gol e jogar na linha para poder se vingar com faltas violentas. Foi difícil convencê-lo a se manter no gol para provar que estava acima da baixaria do time dos metidinhos e que a melhor resposta era com a bola rodando.

A coisa desenrolou assim por uns três anos. O ódio disfarçado de amizade se manteve estável. Eventualmente alguma jogada mais incisiva fazia o clima esquentar, mas tudo dentro da normalidade. Algumas vezes o Siate foi chamado? Foi, mas nada de ter que usar o desfibrilador, sempre algo simples.

Então uma impressionante coincidência acabou com nosso futebol. Eu torci meu tornozelo, Pilce teve um casamento fora do país para ir e já emendou as férias, Nerso teve o horário de trabalho alterado e Cadela quebrou o pé. Tudo na mesma semana. Para o Peido tudo continuou igual, mas ele ficou sem time.

As notícias caíram como uma bomba no grupo. Se um de nós faltasse seria possível substituir por outro amigo, mas com quase todos impedidos só havia uma solução: cancelar novas partidas até um possível retorno no futuro.

No primeiro mês foi tranquilo, cada um estava cuidando das suas coisas, viagens, perna, casamento. Mas os planos de voltar às quadras estavam ali, latentes. O tempo, todavia, tem a peculiaridade de ir colocando outros assuntos na vida das pessoas e aos poucos fomos nos afastando e o sonho ficando cada vez mais distante.

O clima de derrota da última partida ficou no ar, mas pelo visto nada havia a ser feito. Cadela encontrou um dos jogadores do time rival no mercado, que com um sorriso irônico e debochado (palavras do Cadela) perguntou se estava tudo bem conosco, já que todos os jogadores haviam desaparecido. Ainda teve a pachorra de dizer que estavam jogando contra outras pessoas todo sábado.

Um ano e quatro meses depois eu estava no início um filme qualquer do Stallone. Estava no meu rancho, retirado da civilização, cortando lenha para fazer fogo. Na colina em frente a minha casa sem luz elétrica era possível ver as cabras correndo. Minha adorada esposa estendia alvíssimos lençóis no varal quando um barulho ao mesmo tempo estranho e familiar me chamou a atenção.


Era um helicóptero vindo em minha direção. Quando pousou em minha frente, funcionários engravatados do serviço secreto do governo brasileiro saíram, se abaixando para a hélice não decepar suas cabeças, porque os helicópteros são feitos de forma muito insegura, ninguém prevê que dentro dele pode estar viajando uma pessoa muito alta. Um perigo.


Os terninhos e as gravatas deles estavam ainda sofrendo a ação do vento produzido pela aeronave quando um deles me disse “precisamos de você”. Eu disse que estava fora do jogo há muito tempo e que não pretendia voltar. Ele insistiu dizendo que era algo especial e que tinha que ser eu. Eu frisei que não fazia mais parte disso, quando ele disse “é contra o time do agrônomo”. Um brilho perpassou meu olhar quando eu disse “sendo assim eu aceito, mas exijo a presença dos meus homens”.

Talvez eu tenha exagerado e perdido um pouco da precisão que um relato histórico como esse demanda. Mas o fato é que foi assim que eu me senti quando o Pilce me ligou e disse que tinha marcado um jogo contra eles. Por uma nova incrível coincidência, todos estávamos livres para a data combinada.


Do lado deles havia a natural superioridade técnica. Do nosso havia o sangue nos olhos. Eles estavam treinados, já que continuavam jogando regularmente, mas nós estávamos com a paixão correndo em nosso sangue. Eles estavam tranquilos, arrogantes porque obviamente venceriam. Nós tínhamos algo a provar para nós mesmos e o Pilce para sua namorada.


Ainda tinha duas semanas até o dia do jogo. Era a partida das nossas vidas, por isso não poderíamos entrar em quadra sem ao menos um pouco de treinamento prévio. Marcamos treinos, corremos, o Peido até parou de fumar, tamanho seu engajamento. Suco natural de açaí logo cedo, cooper com fones de ouvido, corrida na escada do estádio municipal. Uma amiga que não era nutricionista mas gostava muito de nutrição orientava nossa dieta.


Compramos novas chuteiras. Caneleiras especiais porque sabíamos que o jogo ia ser pegado. Não era uma volta qualquer, era definitiva. Não era questão de chegar ao topo, mas de nos mantermos nele. Era o dream team reunido novamente, o Várzea Clearwater Revival, o retorno de uma lenda. A cidade pararia para ver.

Um dia antes faleceu o pai do Nerso e não foi fácil para nossa equipe de psicólogos fazer o Nerso transformar a dor em sede de vitória (aka vingança). Nossa equipe de psicólogos era composta pelos integrantes do time mais a nutricionista e a namorada do Pilce.

No dia do jogo chegamos uma hora mais cedo para poder fazer alongamento sem a equipe adversária perceber, já que esse cuidado era visto com certo desdém pelos frequentadores da quadra, talvez por não ser praxe em partidas não homologadas pela FIFA.


Eles foram chegando, um a um. Aquele sorrisinho cínico na cara do agrônomo, cumprimentando “oi tudo bem belezinha”. Falso desgraçado, essa simpatia simulada, descortês, daqui a pouco vamos nos ver. Times completos já no local, prontos para a guerrilha.

Não havia juiz. Estávamos prontos para começar uma partida limpa, mas se fosse necessário também estávamos preparados para começar uma matança. Uniformes novos, caneleiras novas, chuteiras novas, brilho e sangue nos olhos, vencer ou vencer, grito de guerra (apenas imaginário, não queríamos que debochassem do nosso grito).


A cidade inteira reunida acabou se resumindo em três ou quatro namoradas daqueles que tinham namoradas. Perdemos de treze a dois, menos de um ano depois a namorada do Pilce casou com o agrônomo e eu não quero mais falar sobre isso.