O homem é um bicho
cruel. Nem me refiro à crueldade grande, da bomba atômica, do holocausto, do
sucesso do cantor Latino, mas daquela crueldade menor, diária, crueldade
moleque, a crueldade de botar apelido nas pessoas. No nosso time de futebol
havia dois Marcos e nenhum era chamado pelo nome. Um era o Cadela e o outro o
Pilce.
O Cadela tinha
adquirido essa alcunha por conta de uma epifania que teve depois de uma aula de
português. A professora estava explicando sobre cacofonia e deu o clássico
exemplo “você viu a boca dela?”, ele demorou mais de um mês para entender e
quando entendeu saiu explicando cacofonia para todo mundo. Virou doutor em
cacofonia mas sempre usava o mesmo exemplo, e a associação foi feita. Virou
Cadela.
Já o Pilce é um
derivado de “piercing” pronunciado do jeito errado uma vez, e uma só vez foi
suficiente para que Marcos Rogério Andrada, hoje gerente de banco, se tornasse
o Pilce. Contam que alguém do nosso grupo teria sido atendido por ele no banco
e, apesar da comum formalidade do ambiente, se dirigido a ele dessa forma. Um
funcionário de menor escalão teria ouvido e, como acontece nesses casos em que
se descobre um podre do chefe, o apelido pegou no banco também, o que teria
causado grande desgosto ao pobre Pilce.
Cadela era central.
Se você não gosta ou não conhece as posições de futsal, central é equivalente
ao zagueiro no futebol de campo. Se mesmo assim não ajuda, explico melhor: é o
cara que joga mal, aí você coloca ele na frente do goleiro e torce para que
algum movimento involuntário do corpo dele faça com quem nem todas as jogadas
adversárias resultem em gol. Pior que ser central é ser goleiro. Goleiro todo
mundo sabe o que é. O goleiro era o Pilce.
No meio da quadra
fica o que joga melhor e geralmente não há debate sobre esse cara, porque sua
qualidade em quadra é inquestionável. No nosso time essa função era
desempenhada pelo Peido. Curiosa a origem desse apelido. Qualquer um acharia
óbvia a forma como ele foi rebatizado — mas se engana. Ele tinha sido
transferido para nossa escola, cujo uniforme era verde. O da escola anterior
era um amarelo bem estranho e, até que o novo ficasse pronto, ele foi ganhando
fama por ser o menino que usava “um uniforme cor de merda”.
Como o apelido era comprido demais, tornou-se apenas “merda”. Ele um dia reclamou disso, sugerindo que seria muito pesado. A consciência coletiva julgou procedente sua reclamação, diminuindo sua pena para algo mais leve. Ficou Peido. Inquestionável o fato de que é mais leve mesmo. Era bom de bola o Peido, por isso era o pivô.
Como o apelido era comprido demais, tornou-se apenas “merda”. Ele um dia reclamou disso, sugerindo que seria muito pesado. A consciência coletiva julgou procedente sua reclamação, diminuindo sua pena para algo mais leve. Ficou Peido. Inquestionável o fato de que é mais leve mesmo. Era bom de bola o Peido, por isso era o pivô.
Pela ala esquerda
jogava o único canhoto que conhecíamos, o Nerso. O nome dele não era Nerso, mas
uma homenagem a um personagem de sucesso dos anos 90 num programa de TV chamado
A Escolinha do Professor Raimundo. Humor baixo, talvez por isso fizesse tanto
sucesso. O Nerso real tinha alguns trejeitos que se assemelhavam aos do Nerso
personagem. Esse apelido ficou tão forte que uma vez a professora, ao chamar
sua atenção em sala de aula, mas sem perder a polidez obrigatória dos
professores, gritou “Vai pra sua mesa, Nelson!”.
O Nerso sozinho daria
material para que livros inteiros fossem escritos a seu respeito, mas agora vou
me contentar em dizer que, se não era muito ágil nos deveres da escola, pela
ala esquerda ele fazia seu trabalho satisfatoriamente. Na ala direita o único
integrante que não tinha apelido nenhum, que é o que acontece com quem carrega
um nome já estranho demais, tão estranho que o próprio nome serve como
instrumento para rebaixá-lo. Na ala direita era eu que jogava.
Esse era o time
completo. Pilce, Cadela, Peido, Nerso e eu. Jogávamos na escola, depois da
escola, antes da escola, nos fins de semana, nos campinhos improvisados, na
rua. Onde houvesse possibilidade. Depois que a escola acabou e fomos nos vendo
cada vez menos, tínhamos que marcar os jogos com alguma antecedência, mas
sempre dava certo. Uns poucos anos depois virou o futebol de quarta à noite ou
de domingo.
Acabamos fazendo
amizade com outro grupo de jogadores como o nosso. Eles também se criaram
juntos, eram amigos de longa data e tinham lá suas histórias e apelidos. Com o
tempo ficamos sabendo de todos, mas não vou contar aqui. Se eles quiserem
imortalizar suas histórias eles que escrevam e contem por si mesmos, aqueles
desgraçados.
Porque a “amizade”
era fora da quadra e mesmo assim com ressalvas. Para me referir àquele bando de
bárbaros, primatas involuídos, vou usar números de um a cinco. Nossa amizade
consistia apenas em jogar toda semana contra eles. Depois do jogo só tolerávamos
sua presença na mesa porque eram eles que tinham mais dinheiro e pagavam a
cerveja enquanto se vangloriavam de suas vitórias, como se alguém se importasse
com isso.
Um dia alguém
perguntou para um deles qual era sua profissão. “Sou agrônomo”. Grandes bosta,
agrônomo. Metido. Já viu algum agrônomo marcar gol? Eu vi. Apesar do grande
respeito que nutro pelo CREA, devo dizer que aquele agrônomo desgraçado marcava
com mais frequência que o que um agrônomo deveria marcar. Além disso, ele era
bonito e cantou a namorada do Pilce e ela gostou, o que fez o Pilce ficar tão
nervoso que quis sair do gol e jogar na linha para poder se vingar com faltas
violentas. Foi difícil convencê-lo a se manter no gol para provar que estava
acima da baixaria do time dos metidinhos e que a melhor resposta era com a bola
rodando.
A coisa desenrolou
assim por uns três anos. O ódio disfarçado de amizade se manteve estável. Eventualmente
alguma jogada mais incisiva fazia o clima esquentar, mas tudo dentro da
normalidade. Algumas vezes o Siate foi chamado? Foi, mas nada de ter que usar o
desfibrilador, sempre algo simples.
Então uma
impressionante coincidência acabou com nosso futebol. Eu torci meu tornozelo,
Pilce teve um casamento fora do país para ir e já emendou as férias, Nerso teve
o horário de trabalho alterado e Cadela quebrou o pé. Tudo na mesma semana.
Para o Peido tudo continuou igual, mas ele ficou sem time.
As notícias caíram
como uma bomba no grupo. Se um de nós faltasse seria possível substituir por
outro amigo, mas com quase todos impedidos só havia uma solução: cancelar novas
partidas até um possível retorno no futuro.
No primeiro mês foi
tranquilo, cada um estava cuidando das suas coisas, viagens, perna, casamento.
Mas os planos de voltar às quadras estavam ali, latentes. O tempo, todavia, tem
a peculiaridade de ir colocando outros assuntos na vida das pessoas e aos
poucos fomos nos afastando e o sonho ficando cada vez mais distante.
O clima de derrota da
última partida ficou no ar, mas pelo visto nada havia a ser feito. Cadela
encontrou um dos jogadores do time rival no mercado, que com um sorriso irônico
e debochado (palavras do Cadela) perguntou se estava tudo bem conosco, já que
todos os jogadores haviam desaparecido. Ainda teve a pachorra de dizer que
estavam jogando contra outras pessoas todo sábado.
Um ano e quatro meses
depois eu estava no início um filme qualquer do Stallone. Estava no meu rancho,
retirado da civilização, cortando lenha para fazer fogo. Na colina em frente a
minha casa sem luz elétrica era possível ver as cabras correndo. Minha adorada
esposa estendia alvíssimos lençóis no varal quando um barulho ao mesmo tempo
estranho e familiar me chamou a atenção.
Era um helicóptero
vindo em minha direção. Quando pousou em minha frente, funcionários engravatados
do serviço secreto do governo brasileiro saíram, se abaixando para a hélice não
decepar suas cabeças, porque os helicópteros são feitos de forma muito
insegura, ninguém prevê que dentro dele pode estar viajando uma pessoa muito
alta. Um perigo.
Os terninhos e as
gravatas deles estavam ainda sofrendo a ação do vento produzido pela aeronave
quando um deles me disse “precisamos de você”. Eu disse que estava fora do jogo
há muito tempo e que não pretendia voltar. Ele insistiu dizendo que era algo
especial e que tinha que ser eu. Eu frisei que não fazia mais parte disso,
quando ele disse “é contra o time do agrônomo”. Um brilho perpassou meu olhar
quando eu disse “sendo assim eu aceito, mas exijo a presença dos meus homens”.
Talvez eu tenha
exagerado e perdido um pouco da precisão que um relato histórico como esse
demanda. Mas o fato é que foi assim que eu me senti quando o Pilce me ligou e
disse que tinha marcado um jogo contra eles. Por uma nova incrível
coincidência, todos estávamos livres para a data combinada.
Do lado deles havia a
natural superioridade técnica. Do nosso havia o sangue nos olhos. Eles estavam
treinados, já que continuavam jogando regularmente, mas nós estávamos com a
paixão correndo em nosso sangue. Eles estavam tranquilos, arrogantes porque
obviamente venceriam. Nós tínhamos algo a provar para nós mesmos e o Pilce para
sua namorada.
Ainda tinha duas
semanas até o dia do jogo. Era a partida das nossas vidas, por isso não
poderíamos entrar em quadra sem ao menos um pouco de treinamento prévio. Marcamos
treinos, corremos, o Peido até parou de fumar, tamanho seu engajamento. Suco
natural de açaí logo cedo, cooper com fones de ouvido, corrida na escada do
estádio municipal. Uma amiga que não era nutricionista mas gostava muito de
nutrição orientava nossa dieta.
Compramos novas
chuteiras. Caneleiras especiais porque sabíamos que o jogo ia ser pegado. Não
era uma volta qualquer, era definitiva. Não era questão de chegar ao topo, mas
de nos mantermos nele. Era o dream team reunido novamente, o Várzea Clearwater
Revival, o retorno de uma lenda. A cidade pararia para ver.
Um dia antes faleceu
o pai do Nerso e não foi fácil para nossa equipe de psicólogos fazer o Nerso
transformar a dor em sede de vitória (aka vingança). Nossa equipe de psicólogos
era composta pelos integrantes do time mais a nutricionista e a namorada do
Pilce.
No dia do jogo
chegamos uma hora mais cedo para poder fazer alongamento sem a equipe
adversária perceber, já que esse cuidado era visto com certo desdém pelos
frequentadores da quadra, talvez por não ser praxe em partidas não homologadas
pela FIFA.
Eles foram chegando,
um a um. Aquele sorrisinho cínico na cara do agrônomo, cumprimentando “oi tudo
bem belezinha”. Falso desgraçado, essa simpatia simulada, descortês, daqui a
pouco vamos nos ver. Times completos já no local, prontos para a guerrilha.
Não havia juiz.
Estávamos prontos para começar uma partida limpa, mas se fosse necessário
também estávamos preparados para começar uma matança. Uniformes novos,
caneleiras novas, chuteiras novas, brilho e sangue nos olhos, vencer ou vencer,
grito de guerra (apenas imaginário, não queríamos que debochassem do nosso
grito).
A cidade inteira
reunida acabou se resumindo em três ou quatro namoradas daqueles que tinham
namoradas. Perdemos de treze a dois, menos de um ano depois a namorada do Pilce
casou com o agrônomo e eu não quero mais falar sobre isso.