Fitilho é uma cordinha de plástico, bem fina e frágil, usada para fazer amarrações temporárias e que não exijam muita força. O tipo de material menos recomendável para prender um cachorro, em especial se o cachorro for um Dog Alemão. Ainda menos se na ponta oposta à do cachorro estiver um toquinho preso no chão de forma pouco segura e firme. E, ainda menos, se o cachorro tiver sido criado para se tornar um assassino sanguinário.
A cena já é
naturalmente perigosa, mas vamos colocar um pouco mais de emoção nisso: o
cachorro está olhando para uma pessoa vestida com o famoso uniforme dos
Correios. Dentro dessa roupa está uma pessoa cujo medo é tão grande que faz
determinadas partes de seu corpo fazerem jus ao famoso ditado “não passava uma
laranja”. Essa pessoa, que vai agora protagonizar a história de seu último dia
como carteiro, sou eu.
Era final de 2005
quando essa cena aconteceu em um local muito peculiar. Casas tinham sido
construídas à margem do rio, de frente para ele, como se o rio fosse rua.
Quando chovia forte, eu precisava me esgueirar para chegar à frente da
residência e entregar as encomendas. Havia chovido muito no fim de semana, por
isso a distância de quase três metros entre a casa e o rio tinha se tornado uma
mistura de lama e dejetos escorregadia e perigosa.
Logo que fiz a curva que dava de frente para essa casa em particular eu vi nos olhos do Alemão aquele brilho que tipicamente precede um assassinato a sangue frio. A baba que escorria de sua boca deixava claro que ele pretendia me dilacerar. Pensei rapidamente se devia voltar de onde vinha ou lutar por minha vida em caso de ataque, porém não tive muito tempo para tomar uma decisão — o cão a tomou por mim.
Dizem por aí que o caráter de uma pessoa se forja na pobreza mais do que na abundância, alegação da qual discordo em partes, tendo já conhecido algumas de bolso fundo que foram bem moldadas por possuir demais. O fato é que, se isso está correto, mesmo que em partes, ali o que mais havia era material de forja pela miséria.
Digo isto porque entre as ruas do bairro havia uma em particular que fazia o restante da região parecer o Itaim Bibi depois de varrido pelo Dória. Dê a um cão um carteiro suculento (não muito) e o cão vai usar sua força descomunal contra ele, mas nunca vai nomear o carteiro, “opa esse aí tem cara de Robson ou Paulo”. Já o homem gosta de colocar nome em tudo, cadeira, helicóptero, vizinho, Itaim, menos nas coisas feias, a essas a gente apenas dá apelidos, e só para que não fiquem impossíveis de ser referenciadas, e acho que é por isso que essa rua era conhecida apenas como Travessa 21.
Foi lá que, numa tarde de sol escaldante de terça-feira, encontrei um pai segurando uma menina no colo, de uns dois anos, e com a outra mão segurando uma cerveja quente e sem gás. Tentando ser simpático, eu disse a ele que a criança era linda, o que o fez olhar para ela, um pouco surpreso pelo elogio súbito, me perguntar “é?” e chorar, olhando para ela como se estivesse procurando onde foi que esse desconhecido viu alguma beleza nessa coisa ranhenta que agora depende de mim para tudo nessa merda de vida e eu não posso nem sequer tomar em paz minha cerveja quente e sem gás numa tarde de terça-feira de sol escaldante.
O sol era escaldante porque era época de Natal, e aqui em Curitiba a gente se sente muito europeu de janeiro a novembro, mas não qualquer europeu porque hoje em dia ninguém quer ser igual a Grécia, aqui a gente gosta de achar que é londrino mesmo, mas na época do Natal, aí não, aí a gente se junta com o resto do país, e chamo de resto porque o curitibano médio, se soubesse jogar futebol, diria assim: “é nós contra a rapa”, e compra simulador de neve pra ficar igual americano, e o tio que interpreta o Papai Noel na família tem que fazer uma aparição bem acelerada para as crianças e entregar tudo meio rápido antes que o suor faça a barba de algodão descolar da cara de tanto calor e estragar a magia.
Foi nesse calor dos sete-infernos que eu bati palmas na casa de uma simpática senhora e gritei “CORREIO”, não sei se hoje eu já poderia dizer isso fora do ambiente da empresa, mas também já faz tanto tempo, espero que não seja informação privilegiada, lá eles orientam os carteiros a gritar “CORREIO” e não “carteiro” como você poderia imaginar, porque “Correio” é o nome da empresa, e empresa pequena assim depende desse marketing feito literalmente no grito, se gritasse “carteiro” seria marketing pessoal, como se estivesse melhorando sua própria imagem de carteiro frente aos moradores, como um pavão gritando ao mundo “olhem pra mim, o carteiro chegou”.
Eu tinha vergonha de gritar devido à minha natural timidez, então eu sempre preferia primeiro usar o expediente de bater palmas antes, e só gritava quando as palmas não eram suficientes ou quando eu precisava que o morador soubesse que era o Correio e não um credor que estivesse procurando por um devedor que morasse lá. Uma senhora muito simpática saiu de casa, pegou sua carta enviada por um ente querido (provavelmente era multa, ninguém mais manda cartas pros entes queridos, desconfio que talvez tenha acabado o querer entre os entes), assinou o documento e eu já saía rápido para a próxima carta, que também exigiria assinatura do morador para que fosse feita a entrega.
A cena que aconteceu nos próximos dois segundos já foi contada por mim várias vezes aos mais próximos. Uma vez eu disse isso para uma amiga minha e ela riu tanto que casou comigo e ficou rindo por nove anos. Eu estava indo para a próxima casa quando, sendo natal, ela disse “feliz natal”. Eu, já com o grito de “CORREIO” para a próxima casa pronto na boca, na garganta e principalmente na alma, não poderia deixar de responder à simpatia dela, porém me confundi e, no meio da rua, diante de uma população incrédula, gritei o mais alto que pude “BRIGADO”.
Você consegue imaginar o carteiro louco no meio da sua rua gritando “BRIGADO”. Não é uma pergunta. É uma afirmação: você consegue. Agora coloque isso em uma pessoa tímida em quem botaram um uniforme chamativo e uma obrigação de fazer esse marketing e imagine como eu me senti. As crianças rindo de mim.
Talvez por conta dessa ocasião eu tenha, desse dia em diante, focado tanto em não passar vergonha que não percebi o clima de perigo que precedeu o momento em que me deparei com o Dog Alemão. Mudei tanto de assunto que quase me esqueço de falar do Dog Alemão. Ele era preto, adulto, lindo e terrivelmente bravo. Como já mencionei, ele estava preso por um fitilho atado a um toquinho no chão. Ele me viu e um só movimento com o pescoço pra frente arrancou fitilho, toquinho e tudo. E no segundo passo em minha direção ele já pulou. Que cão fenomenal.
Minha reação foi instintiva: puxei com a mão direita a bolsa de cartas pra frente, e a única explicação científica para a atitude dele é que a Virgem Maria me abençoou: ele mordeu justamente a bolsa. O bicho me derrubou na lama e, enquanto tentava arrancar a bolsa de mim, ia me empurrando cada vez mais em direção ao rio, a ponto de parte do meu corpo já pender mais para o rio que para a terra firme. Eu, que não sabia nadar, estava num curioso dilema, daqueles que a gente faz por falta de coisa melhor para fazer quando é criança, e quase nunca tem a oportunidade de saber na prática: se você precisar escolher, é melhor morrer estraçalhado por um cachorro ou afogado?
Eu procurava uma pedra ou objeto cortante com a outra mão para entrar em luta corporal com ele, já que na porrada eu claramente não teria êxito, quando uma pessoa da casa saiu correndo, atraído pelos gritos das crianças que observavam a cena, curiosas e excitadas para ver como os carteiros morriam, e gritou e bateu no cachorro, que por alguma razão me soltou e saiu correndo.
Se você já experimentou uma descarga de adrenalina tão grande a ponto de ter certeza que vai morrer, misturado com o sentimento de humilhação pelo riso das pessoas e o com mais completo desinteresse em manter seu trabalho, você sabe como eu me senti. O uniforme amarelo limpo não chega perto de chamar tanto a atenção quanto o uniforme amarelo depois de rolar na mistura de barro e esgoto. Foi assim que minha roupa estava quando eu reapareci diante do meu chefe para pedir demissão, não sem antes deixar a timidez de lado, falar umas boas verdades para ele e jogar a bolsa suja de esgoto sobre seus importantes papéis.
Naquele dia, confesso, de forma pouco sustentável, eu ignorei o pedido de economia de energia e água da empresa e tomei um banho de duas horas antes de sair pela última vez por aquela porta.
Logo que fiz a curva que dava de frente para essa casa em particular eu vi nos olhos do Alemão aquele brilho que tipicamente precede um assassinato a sangue frio. A baba que escorria de sua boca deixava claro que ele pretendia me dilacerar. Pensei rapidamente se devia voltar de onde vinha ou lutar por minha vida em caso de ataque, porém não tive muito tempo para tomar uma decisão — o cão a tomou por mim.
Dizem por aí que o caráter de uma pessoa se forja na pobreza mais do que na abundância, alegação da qual discordo em partes, tendo já conhecido algumas de bolso fundo que foram bem moldadas por possuir demais. O fato é que, se isso está correto, mesmo que em partes, ali o que mais havia era material de forja pela miséria.
Digo isto porque entre as ruas do bairro havia uma em particular que fazia o restante da região parecer o Itaim Bibi depois de varrido pelo Dória. Dê a um cão um carteiro suculento (não muito) e o cão vai usar sua força descomunal contra ele, mas nunca vai nomear o carteiro, “opa esse aí tem cara de Robson ou Paulo”. Já o homem gosta de colocar nome em tudo, cadeira, helicóptero, vizinho, Itaim, menos nas coisas feias, a essas a gente apenas dá apelidos, e só para que não fiquem impossíveis de ser referenciadas, e acho que é por isso que essa rua era conhecida apenas como Travessa 21.
Foi lá que, numa tarde de sol escaldante de terça-feira, encontrei um pai segurando uma menina no colo, de uns dois anos, e com a outra mão segurando uma cerveja quente e sem gás. Tentando ser simpático, eu disse a ele que a criança era linda, o que o fez olhar para ela, um pouco surpreso pelo elogio súbito, me perguntar “é?” e chorar, olhando para ela como se estivesse procurando onde foi que esse desconhecido viu alguma beleza nessa coisa ranhenta que agora depende de mim para tudo nessa merda de vida e eu não posso nem sequer tomar em paz minha cerveja quente e sem gás numa tarde de terça-feira de sol escaldante.
O sol era escaldante porque era época de Natal, e aqui em Curitiba a gente se sente muito europeu de janeiro a novembro, mas não qualquer europeu porque hoje em dia ninguém quer ser igual a Grécia, aqui a gente gosta de achar que é londrino mesmo, mas na época do Natal, aí não, aí a gente se junta com o resto do país, e chamo de resto porque o curitibano médio, se soubesse jogar futebol, diria assim: “é nós contra a rapa”, e compra simulador de neve pra ficar igual americano, e o tio que interpreta o Papai Noel na família tem que fazer uma aparição bem acelerada para as crianças e entregar tudo meio rápido antes que o suor faça a barba de algodão descolar da cara de tanto calor e estragar a magia.
Foi nesse calor dos sete-infernos que eu bati palmas na casa de uma simpática senhora e gritei “CORREIO”, não sei se hoje eu já poderia dizer isso fora do ambiente da empresa, mas também já faz tanto tempo, espero que não seja informação privilegiada, lá eles orientam os carteiros a gritar “CORREIO” e não “carteiro” como você poderia imaginar, porque “Correio” é o nome da empresa, e empresa pequena assim depende desse marketing feito literalmente no grito, se gritasse “carteiro” seria marketing pessoal, como se estivesse melhorando sua própria imagem de carteiro frente aos moradores, como um pavão gritando ao mundo “olhem pra mim, o carteiro chegou”.
Eu tinha vergonha de gritar devido à minha natural timidez, então eu sempre preferia primeiro usar o expediente de bater palmas antes, e só gritava quando as palmas não eram suficientes ou quando eu precisava que o morador soubesse que era o Correio e não um credor que estivesse procurando por um devedor que morasse lá. Uma senhora muito simpática saiu de casa, pegou sua carta enviada por um ente querido (provavelmente era multa, ninguém mais manda cartas pros entes queridos, desconfio que talvez tenha acabado o querer entre os entes), assinou o documento e eu já saía rápido para a próxima carta, que também exigiria assinatura do morador para que fosse feita a entrega.
A cena que aconteceu nos próximos dois segundos já foi contada por mim várias vezes aos mais próximos. Uma vez eu disse isso para uma amiga minha e ela riu tanto que casou comigo e ficou rindo por nove anos. Eu estava indo para a próxima casa quando, sendo natal, ela disse “feliz natal”. Eu, já com o grito de “CORREIO” para a próxima casa pronto na boca, na garganta e principalmente na alma, não poderia deixar de responder à simpatia dela, porém me confundi e, no meio da rua, diante de uma população incrédula, gritei o mais alto que pude “BRIGADO”.
Você consegue imaginar o carteiro louco no meio da sua rua gritando “BRIGADO”. Não é uma pergunta. É uma afirmação: você consegue. Agora coloque isso em uma pessoa tímida em quem botaram um uniforme chamativo e uma obrigação de fazer esse marketing e imagine como eu me senti. As crianças rindo de mim.
Talvez por conta dessa ocasião eu tenha, desse dia em diante, focado tanto em não passar vergonha que não percebi o clima de perigo que precedeu o momento em que me deparei com o Dog Alemão. Mudei tanto de assunto que quase me esqueço de falar do Dog Alemão. Ele era preto, adulto, lindo e terrivelmente bravo. Como já mencionei, ele estava preso por um fitilho atado a um toquinho no chão. Ele me viu e um só movimento com o pescoço pra frente arrancou fitilho, toquinho e tudo. E no segundo passo em minha direção ele já pulou. Que cão fenomenal.
Minha reação foi instintiva: puxei com a mão direita a bolsa de cartas pra frente, e a única explicação científica para a atitude dele é que a Virgem Maria me abençoou: ele mordeu justamente a bolsa. O bicho me derrubou na lama e, enquanto tentava arrancar a bolsa de mim, ia me empurrando cada vez mais em direção ao rio, a ponto de parte do meu corpo já pender mais para o rio que para a terra firme. Eu, que não sabia nadar, estava num curioso dilema, daqueles que a gente faz por falta de coisa melhor para fazer quando é criança, e quase nunca tem a oportunidade de saber na prática: se você precisar escolher, é melhor morrer estraçalhado por um cachorro ou afogado?
Eu procurava uma pedra ou objeto cortante com a outra mão para entrar em luta corporal com ele, já que na porrada eu claramente não teria êxito, quando uma pessoa da casa saiu correndo, atraído pelos gritos das crianças que observavam a cena, curiosas e excitadas para ver como os carteiros morriam, e gritou e bateu no cachorro, que por alguma razão me soltou e saiu correndo.
Se você já experimentou uma descarga de adrenalina tão grande a ponto de ter certeza que vai morrer, misturado com o sentimento de humilhação pelo riso das pessoas e o com mais completo desinteresse em manter seu trabalho, você sabe como eu me senti. O uniforme amarelo limpo não chega perto de chamar tanto a atenção quanto o uniforme amarelo depois de rolar na mistura de barro e esgoto. Foi assim que minha roupa estava quando eu reapareci diante do meu chefe para pedir demissão, não sem antes deixar a timidez de lado, falar umas boas verdades para ele e jogar a bolsa suja de esgoto sobre seus importantes papéis.
Naquele dia, confesso, de forma pouco sustentável, eu ignorei o pedido de economia de energia e água da empresa e tomei um banho de duas horas antes de sair pela última vez por aquela porta.