Na minha rua existia uma hierarquia entre as crianças. Os mais velhos e maiores eram obviamente os que controlavam as brincadeiras. A mais nobre, claro, era o futebol, disputado num terreno baldio cuja demarcação era feita com uma vareta — riscávamos o chão de terra preta até que ficasse uma marca quase impassível de questionamento sobre os limites do campo — de forma tão rudimentar que havia no ar um medo permanente de que um dia um fiscal da FIFA aparecesse por lá e impugnasse novas disputas em nosso estádio.
Eu não estava entre os maiores, o que me fazia ter duas opções para brincar: aceitar ficar no time mais fraco e ser sempre goleado ou ir brincar sozinho e fingir que estava declarando minha independência do grupo. Chamo de fingir porque todos os que declaravam independência acabavam voltando, um dia ou meia hora depois do ato de rebeldia.
E nesse dia eu estava rebelde. Um menino novo tinha chegado no grupo e, olhando de longe, eu previ: “esse piá deve ter uns onze anos”. Onze anos significava que um forasteiro, desconhecido, estava chegando agora e já ia ser o novo mandachuvas do grupo, por ser mais velho e maior que todos. Eu não podia aceitar isso. Mas também não tinha como fazer nada a respeito.
Decidi que eu não precisava da companhia de ninguém para me divertir. Fui para casa e peguei minha bicicleta, vento nos cabelos que existiam à época. Meu amigo, também ruim de bola, resolveu me acompanhar. Não éramos mais escravos da máquina de dinheiro que o futebol havia se tornado, com negociatas por debaixo dos panos, resultados arranjados, patrocinadores corruptos. Éramos desbravadores, Colombos procurando novas terras, novas civilizações, fósseis, maravilhas da natureza ainda desconhecidas da humanidade, tribos indígenas nunca vistas por homens brancos.
Éramos um pouco exagerados também. Eventualmente éramos X-Men, eu era o Gambit, um personagem que atirava cartas de baralho e de algum modo isso era um tipo de poder especial. Dei algum desgosto aos meus pais por conta disso, já que eu aprimorava meu eu cênico com o baralho que eles usavam na cacheta. Eram tempos difíceis, de imaginação fértil e um só maço de cartas.
Dávamos então voltas na quadra de bicicleta e, quando passávamos em frente ao campinho onde a partida seguia sem nossa participação, não era sem algum recalque que gritávamos mais alto nossa felicidade por termos escolhido outra brincadeira, talvez secretamente desejando que houvesse outras dissidências entre os jogadores e que, por falta de quórum, o jogo não pudesse prosseguir, e que talvez o grandão de onze anos tropeçasse e caísse de cabeça numa pedra e morresse, que tragédia terrível seria, mas acontece, vida que segue, o esporte não poderia parar. Eu contei esses pensamentos para o padre um tempo depois, o que o fez aumentar tanto o meu número habitual de aves-marias que eu acho que Deus perdoou até alguns pecados posteriores.
Porém o ciclismo é um esporte que demanda a utilização de músculos diferentes daqueles usados no futebol, e por isso um tempo depois estávamos cansados e decidimos nos dedicar à arte da boa e amigável conversa só possível entre pessoas de bem e de consciência limpa, que era como nos sentíamos naquele momento. Sentamo-nos no meio-fio e meu amigo, sem cerimônia, me disse que havia descoberto como os bebês eram feitos. Isso acende em qualquer pessoa uma curiosidade ímpar, e comigo não foi diferente.
Eu já conhecia algumas teorias. O repolho, a cegonha e o correio eram as mais populares. Não que eu vivesse me debruçando sobre o assunto para descobrir, mas todas me pareciam pouco prováveis. Nas poucas vezes em que pensei nisso eu percebi um ar evasivo dos adultos, o que me fazia acreditar que o processo devia envolver bebidas, cigarro ou dinheiro.
Meu amigo me contou o processo que ele considerava verdadeiro. Somente anos depois eu fui saber que batia com a explicação universalmente aceita. Claro, ele disse com as palavras que tinha disponíveis à época, mas ainda assim com a crueza que só uma criança pode ter, sem metáforas ou apelidos.
É óbvio: não engoli aquela história. E eu tinha razões de ordem anatômica para não acreditar. A coisa simplesmente não tinha como funcionar daquele jeito. Como assim, dentro? Como assim, “um espirro tipo quando você está com gripe”? Como assim, “um espirro” por lá? Eu podia não aceitar como totalmente convincentes as explicações mais famosas (repolho, cegonha, correio), mas definitivamente elas tinham mais base científica para merecer minha atenção do que aquele absurdo ridículo que ele me dizia.
Tanto que abandonei a conversa, sugerindo que nossa rebeldia já deveria ter surtido efeito e que deveríamos voltar para o campinho. Voltamos a tempo de ver o Onze-Anos marcar um belo gol de cabeça, fato que foi objeto de disputa verbal e quase física entre as duas equipes, já que a trave era marcada por tijolos, o que permitia uma interpretação dúbia sobre sua altura. No fim o gol foi validado e o Onze-Anos, mais vivo do que nunca, para secreto desprazer de alguns, consolidou seu lugar no topo na nova hierarquia da rua.
Aquela explicação patética que meu amigo trazia consigo foi se revelar mais provável apenas na adolescência, época em que a curiosidade sobre biologia bate forte e demanda uma extensa pesquisa audiovisual a respeito. O material de investigação naqueles anos pré-internet era muito mais restrito mas, ainda assim, uma cuidadosa busca no mercado negro do bairro era capaz de escavar alguma coisa. Curiosamente, e veja só como Deus escreve certo por linhas tortas, o mercado negro era comandado justamente pelo Onze-Anos. Deus é especialista em plot twist.
Mais de 25 anos se passaram desde aquela tarde. A FIFA nunca apareceu no campinho. Quem apareceu foi o feliz comprador de um terreno no jardim Santa Regina, que construiu sua casa sobre a terra batida onde tantos gols haviam sido feitos e comemorados. Mesmo o Onze-Anos, com todo seu poder de deixar aos novos proprietários bilhetes ameaçadores de supostos traficantes interessados no terreno, foi incapaz de impedir nosso despejo, e nessa ocasião depositávamos nele nossas sinceras esperanças.
Não que eu tenha me dedicado à pesquisa de campo e à comprovação empírica com muita ambição, mas houve oportunidades ao longo desses anos em que a teoria pífia do meu amigo teve chances de se comprovar verdadeira. Não se comprovou, portanto o método científico que tomo como parâmetro para a vida me obriga a colocá-la em pé de igualdade diante das demais.
Hoje, não tendo nunca visto uma cegonha na vida, olho com certo receio para o repolho no mercado ou para o carteiro que segura uma bolsa grande (muito embora eu tenha já exercido a nobre função de entregar cartas às pessoas e saiba que é proibido carregar bebês na bolsa – aliás, se não fosse, não sei nem mesmo se eles seriam chamados de bebês ou de fetos até o momento da entrega, fica aí o questionamento) e para qualquer amor que se comece a desenhar, temendo que qualquer uma dessas igualmente convincentes teorias me traga uma pessoa – que um dia será ou temerá Onze-Anos.